Excerto de Rádio DWO, esportes e só

 

Sobremesa redonda tá de volta. Vamos prosseguir com o debate sobre o nível das arbitragens no futebol brasileiro. Eu pergunto ao árbitro Sálvio Malaquias: por que os juízes permitem que os jogadores façam tanta cera?

— Porque é simplesmente impossível coibir essa prática. Eu até já tentei, mas confesso que falhei.

— Por quê?

— Porque quando eu perguntava aos jogadores se eles estavam fazendo cera, eles sempre respondiam que não.

— É, sem a colaboração dos jogadores fica difícil.

— Exatamente. Sem falar que eu já estou cansado de ser destratado por esses mal-educados. Imagina que uma vez eu tentei agradar um deles dizendo discretamente que ele tinha enganado o adversário direitinho. Sabe o que o malcriado me respondeu?

— Não.

— Que, vindo de mim, era o maior elogio que já tinha recebido na vida!

— Sei. Mas e o juiz Furtado Esteves? Acha que o mal crônico da cera tem solução?

— Tenho certeza que sim. E bem simples, por sinal.

— Então, por favor, juiz, nos diga: que solução é essa?

— Oficializar a cera.

— Como assim?

— Muito simples, Seabra: quando um erro não pode ser corrigido, é melhor oficializá-lo.

— Concordo plenamente!

— Esse foi o juiz Eugênio Dualibi.

— Desculpe a intromissão, Seabra, mas é aquela história de criar dificuldades para vender facilidades. A regra fixa o tempo de duração de cada período da partida e acaba gerando esse problema da cera. O atleta pressente que o juiz só vai encerrar a partida no fim do tempo regulamentar e se vê obrigado a apelar para tais expedientes.

— Desculpe, juiz Dualibi, mas eu acho que o ouvinte não entendeu...

— Perdão se não me faço entender, Seabra. Vou dar um exemplo: nas férias passadas, estava eu dirigindo meu automóvel numa estrada que, como todas as outras, fixava um limite de velocidade. Muito bem. Eu estava dirigindo ligeiramente acima desse limite até para não ficar atravancando a via, está me entendendo? Então me surgiu um guarda, não sei de onde, e me mandou parar no acostamento. Como eu também estava ligeiramente bêbado, ele me mandou sair do veículo e pediu que eu fizesse um quatro, o que obviamente estava além das minhas aptidões naquele momento, está me entendendo? Se ele tivesse me pedido para ficar de quatro, eu até poderia ter ficado, porque sempre fiz questão de colaborar com as autoridades. Agora, fazer um quatro...

— Claro, juiz. Por favor, prossiga.

— Então ficamos, eu e ele, parados, na estrada, naquele impasse. Eu tentei explicar que era um absurdo pedir a uma pessoa bêbada que fizesse um quatro. Não sei quem inventa essas coisas. Não há a menor possibilidade, é praticamente impossível, correto? O guarda foi até muito gentil. Disse que me conhecia, até já tinha me visto na televisão, e entendia o meu problema, mas precisava cumprir o seu dever. Agora, Seabra, veja só a situação: o guarda de pé, segurando o bloco de multas, e eu apoiado nele. Então eu pensei nessa problemática da venda das facilidades. Puxa vida! O rapaz queria um simples quatro de mim, só que um quatro eu não podia dar. Sabe como eu resolvi o impasse, Seabra?

— Por favor, juiz, estamos curiosos.

— Tirei a minha carteira e dei logo um cinqüenta.